Takako Obaatian

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Quando eu penso da Batchan, fico achando que ela era muito sábia, tão sábia que eu demorei para começar a entender tudo o que ela ensinou com seu jeito de viver.

Lembro de como ela ia devagar estender a sua roupa, e arrumava tudo no varal no ritmo da respiração do cachorro que dormia ao lado no sol molenga da manhã. Estender roupa era estar junto à natureza.

Ela cuidava do altar do Hotokesan como se Ditchan estivesse sempre vivo ali, como se ele estivesse sentado numa cadeira bem ali. Ela fechava os olhos, juntava as mãos e sumia. A alma dela ia para outro lugar nos segundos que ela fazia “namu-namu”. Vê-la fazer isso era uma das coisas mais mágicas que havia. Eu sempre tinha certeza de que Ditchan estava sempre olhando por nós.

Hoje ela está junto com Ditchan, e eles me pediram para a família rezar para ela neste aniversário de 13 anos da morte dela. Mas ela não pediu missa. Ela me explicou: disse que gostaria que cada um pensasse nela para refletir sobre sua própria maneira de viver. Ela gostaria de inspirar cada um a viver de maneira mais consciente e integrada à vida verdadeira.

Ela disse que acabou vivendo do jeito dela, “yukkuri” (devagar e firme) por não conhecer mais sobre o mundo, porque aquela vidinha era a que ela conhecia como vida e era só. Mas hoje, as pessoas acabam tendo muitas informações, mas não refletem para quê tudo isso. E ela está vendo a sua família, seus filhos e seus netos, deixando-se levar por uma rotina alucinada sem curtirem o presente momento, o agora.

Ditchan disse assim: eu não sou um monstro. Meu erro foi não ser presente na vida dos meus filhos. E eu não quero que você repita o mesmo erro que eu.

As florezinhas que a Baatian sempre tinha na casa dela, o arroz lavado como se fosse namu-namu, as minúsculas sobras da janta guardadas cuidadosamente, tudo era oração. Era celebrar e agradecer pela vida. E ela fazia isso solitária e silenciosamente, vendo a praticidade da vida moderna entrando na família de uma maneira em que ela não acreditava.

E ela fazia batatinha frita para os netos com tanta dedicação! Era tão gostoso que ninguém reparava que ela preparava a batata por horas e horas, cortando, deixando de molho, secando, seguindo as dicas que aprendia com as amigas do Fujinkai. Era tão gostoso! Ela fritava até o último neto parar de comer. E só então ela se sentava para jantar. E ninguém nem percebia que ela devia estar com fome e cansada, porque nos dias de batata frita ela tirava uma energia do fundo da alma e adorava ver os netos comendo e disputando as batatinhas!

Lembro de cada coisinha que havia na estante da sala. A cristaleira cheia de lembrancinhas de casamento e aniversário. A latinha de ervilha com florzinha na janela do banheiro, pra espantar medo de lagartixa. O ikebana sempre bonito. Como era gostoso olhar para tudo isso!… Olhar a casa dela era como meditar.

Ela não dava conta de manter tinindo de limpo, e tentava fazer a melhor faxina que conseguia porque “Misako ga kuru kara.” mas sempre, sempre era uma casa com uma energia tremendamente fluida e boa. Era com muito amor que ela vivia.

Ela não quer a gente fique lembrando dos anos que ela passou de cama. Ela quer que a gente se lembre dos anos em que ela foi ela mesma, plenamente. E ela não quer que a gente reze como se fosse um dever. Não funciona.

Ela está tão bem! Ela está com Ditchan, numa casa branca com janelas azuis num morro bem florido. Sempre muito tranquila. Ela quer que a gente reze por ela para que ela possa nos ajudar, a cada um de nós. Ela não precisa que rezemos automaticamente pra ela, com um rabixo de pensamento no pão que tem que comprar pra amanhã. Não funciona nada.

Ela quer que nos lembremos dela, e nos inspiremos para ter uma vida mais consciente e presente. Termos consciência dos nossos valores, avaliarmos nossos objetivos de vida, pensarmos se está certo o caminho, se está certo pensar assim. Certo com a alma.

Se estamos escutando verdadeiramente as crianças. Se as respeitamos como seres humanos com sentimentos. Se estamos dando um bom exemplo. Somos o que queremos o que nossos filhos sejam? Se estamos conseguindo acompanhar e respeitar o ritmo dos filhos, ou se perdemos a paciência rapidamente e atropelamos suas emoções, seus aprendizados, suas experiências por falta de preparo nosso.

Batchan quer que paremos de nos deixar levar pela enxurrada que é a vida de hoje. E para isso, ela pede para que rezemos, mas não uma oração pronta. Ela quer que cada um se deixe levar pela sua própria lembrança, para refletir sobre o seu próprio ser. Para cada um se auto-conhecer, através do que ela foi. E que essa reflexão, esse namu-namu, seja na direção de uma vida de paz e de amor, de escuta. Escutar as crianças, os chamados dos anjos e seu próprio coração. Porque é isso que vai fazer cada um caminhar para a frente, e bem. E não as ilusões que a sociedade urbana cria e que acreditamos sem nos darmos conta.

E ela também disse assim um dia: “Anata no karada, anata no kokoro, anata no kodomo. Minna onaji koto”. Seu corpo, seu coração, seus filhos. Tudo é a mesma coisa.

Querendo dizer: seu filho sofre com seu sofrimento. Seja feliz, cuide da sua saúde e do seu espírito, para que seu filho consiga ser feliz também.